Alessandra Negrini, conhecida por diversos trabalhos na TV, traz a Fortaleza o monólogo surrealista A Árvore, no Teatro Brasil Tropical. Ao Tapis Rouge, a atriz detalha o espetáculo que mistura humor e crítica ambiental
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Que tal ganhar uma plantinha de presente e, de repente, se descobrir conectada a ela por um fio de cabelo? É essa viagem surreal — entre o cômico e o filosófico — que Alessandra Negrini apresenta em A Árvore, monólogo escrito por Silvia Gomez, que está em cartaz no Teatro Brasil Tropical neste sábado (5) e domingo (6). A peça, que nasceu durante a pandemia como filme — disponível em plataformas como Apple TV —, ganhou raízes no palco e agora chega a Fortaleza com sessões acessíveis em Libras e audiodescrição.
A trama acompanha A., personagem que, ao se ver presa à planta, mergulha numa metamorfose física e existencial. “A Árvore é um relato de amor. A personagem nos conta a sua história, a sua aventura mais íntima e nos oferece o testemunho de ver o seu corpo se transformando em algo outro. As angústias e as alegrias dessa viagem viram palavras e imagens potentes que ela mesma cria. É uma escrita performática, uma página, uma peça, uma narrativa dessa metáfora de virar algo que não é mais si mesmo. A ideia de virar uma árvore lhe parece bela e necessária e não há mais como escapar”, diz ao Tapis Rouge Alessandra Negrini, que também assina a produção.

A dramaturga Silvia Gomez revela que a inspiração veio de um episódio real: “Um dia, regando uma planta, vi um fio do meu cabelo preso a ela. Pedi para meu filho fotografar e transformei o episódio em textos”. A obra dialoga ainda com o livro Revolução das Plantas, do biólogo Stefano Mancuso, questionando nossa relação com a natureza. “As personagens que escrevo são essas que, de repente, olham para a realidade, mas não cabem mais nela, adentrando então um espaço de delírio que, para mim, é, na verdade, extrema lucidez. Um exercício de tentar elaborar o tremendo real por outra camada, reconhecendo nele as fissuras que nos permitem formular novas perguntas”, acrescenta Silvia, conhecida por tramas que exploram delírios como forma de lucidez, como Mantenha fora do alcance do bebê — ganhadora de prêmio na Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) — e Neste mundo louco, nesta noite brilhante, indicada ao Prêmio Shell. Suas peças foram traduzidas para o espanhol, francês, sueco, alemão, inglês, italiano e mandarim, tendo sido encenadas e lidas em países como Bolívia, México, Inglaterra, Espanha, Escócia e Portugal.
Olhar para o surreal
Para Alessandra, traduzir a transformação da personagem exigiu um mergulho emocional. “É um texto feminino no sentido de ser um processo interno de mudança, coisa que nós, mulheres, conhecemos bem. E feminino também porque é uma busca do orgânico, da terra, em oposição aos valores de uma sociedade construída para se proteger da natureza. Não é fácil, mas me sinto muito bem quando viro essa árvore! [risos] A direção da Ester é bonita e intensa como são as mulheres, mas para explicar isso só vocês assistindo!”, convoca a atriz. O espetáculo reforça o tablado como espaço de experimentação: “O teatro é resistência desde o seu nascimento. É o lugar de encontros mágicos, de mistérios e comunhão. O lugar onde a gente celebra a vida”, defende.
Ansiosa para ver o público cearense, a atriz brinca: “Eu amo Fortaleza! É sempre muito especial estar aqui, pelo público carinhoso, as praias e as músicas”. E finaliza com um convite: “Para explicar, só assistindo”.
serviço
Espetáculo A Árvore
Neste sábado (5), às 20h, e domingo (6), às 19h
No Teatro Brasil Tropical. Avenida da Abolição, 2323, Meireles
Ingressos no Sympla com taxas, e na bilheteria do Teatro com valores entre R$ 25 e R$ 100
Acessibilidade em Libras e audiodescrição na apresentação do domingo (6)
Mais informações pelo telefone (85) 99189-2372 e pelo Instagram @teatrobrasiltropical